sexta-feira, 23 de julho de 2010

Análise crítica - Cartas Chilenas

(Tomás Antônio Gonzaga - Cartas Chilenas)

Tomás e Vila Rica

A capitania (Vila Rica) era o centro de negociações do ouro e diamantes extraídos nas riquíssimas redondezas. Mas o ouro não era nosso, a política da Coroa portuguesa seguia uma única receita: tratar a colônia como a "vaca americana" - na famosa expressão de d. João IV - da qual era preciso arrancar a todo o custo o leite, o couro e os ossos. Como consequência de tanta exploração e espoliação, os minérios começavam a esgotar-se. Além do mais, era impossível fazer face aos impostos excessivos garroteados pelo insaciável fisco português.

A maior parte dos contribuintes de Vila Rica - ricos e médios - devia fortunas à Coroa. Somavam-se a esse abuso o alto preço da mão-de-obra escrava e dos instrumentos de mineração e, ainda, os altos donativos exigidos pelo clero.

O ambiente da capitania era extremamente tenso.

Configurava-se um estado de coisas que não podia continuar, sob pena de gerar um conflito aberto com as autoridades portuguesas. A 10 de outubro de 1783, o capitão-general Luís da Cunha Meneses assumia o governo. Seu autoritarismo e inúmeros desmandos iriam agravar a situação. O governador desrespeitava sistematicamente as decisões da Justiça sobre concessões de negócios e questões administrativas, decretava medidas ilegais, vendia cargos, títulos etc. Para sustentar-se no poder, valeu-se de um grupo de arrivistas e privilegiados. Militarizou o governo, aumentando exageradamente a tropa, e usou a força militar para a cobrança da taxa dos dízimos.


Tomás, Cunha Meneses e as Cartas

Gonzaga, em seu cargo de ouvidor, via com frequência suas decisões desrespeitadas. Reagiu com firmeza e opôs-se ao governador, contestando seus atos e protestando junto às autoridades superiores. Por fim, enviou um carta à rainha em que relatava o "notório despotismo" de Cunha Meneses.

Cauteloso, sem correr riscos desnecessários, fez que o poema circulasse clandestinamente. Atribuiu o poema a um autor chileno, também escondido sob o pseudônimo Critilo.

O nome Cartas chilenas deve-se ao artifício usado de situar os acontecimentos no Chile, embora a caracterização da cidade, dos acontecimentos e do governador fosse bastante óbvia.

O poema está dividido em treze cartas dirigidas pelo poeta Critilo a seu amigo Doroteu (Cláudio Manuel da Costa); das cartas 7ª e 13ª só ficaram fragmentos.

Cunha Meneses foi satirizado sob o pseudônimo Fanfarrão Minésio, e Joaquim Silvério dos Reis, que viria a delatar os inconfidentes, aparece como Silverino.

As Cartas começam com a narrativa da chegada do Fanfarrão Minésio ao Chile. Ainda na primeira carta, conta-se a posse do Fanfarrão e sua atitude prepotente, humilhando as outras autoridades:

"São estes, louco chefe, os sãos exemplos
Que, na Europa, te dão os homens grandess
Os mesmos reis não honram aos vassaloss
Deixam de ser, por isso, uns bons monarcass

Na segunda carta, os primeiros atos do governador são apresentados como demagógicos, caprichosos e arbitrários, tomando em suas mãos decisões que deviam caber à Justiça.

A partir da terceira carta, surgem em episódios sucessivos os atos de desmando, de desprezo e humilhação às outras autoridades e aos ilustres da terra, os favorecimentos ilícitos, o grupo de favoritos e privilegiados do poder, a corrupção.


As Cartas e o seu poder de crítica

Não há nada nas Cartas que corresponda a um sentimento de nacionalismo e rebeldia contra o domínio português ou contra o sistema de poder (segundo Duda Machado). Sua crítica dirige-se à violação da justiça constituída, ao abuso de poder, à corrupção palaciana e aos desmandos apoiados na militarização do governo ("Não há, não há distúrbio nesta terra / De que a mão militar não seja autora").

As Cartas têm um tom de realismo e de vigor de linguagem raros para a época, um tanto asfixiada pelas convenções e vagas generalidades do Arcadismo. Em vários trechos, a linguagem das Cartas traz a presença da paisagem física e social brasileira.

Manuel Bandeira sintetizou assim o alcance satírico do poema: "Aquela sociedade improvisada em pleno sertão pela cobiça do ouro, com seus desmandos de prepotência e sensualidade, nos é pintada com implacável realismo". A crítica contida nela ultrapassa as circunstâncias de um determinado governo para desnudar as bases do autoritarismo colonial, com seu sistema de privilégios e sua mão militar.

Fonte: Duda Machado.

13 comentários:

flavio disse...

Flavio- Ta muito bom professor

Joadyson disse...

Muito bom, gostei muito e certamente irá me ajudar, parabéns esse foi o melhor que eu encontrei na internet (:

Professor Thiago Lira disse...

Flávio e Joadyson, muito obrigado!

Leonardo disse...

Olá professor Thiago
Sou aluno da Etec de Itanhaém, SP, e devo agradecer-lhe por ter postado tão completo resumo. Foi sem dúvida um dos melhores que encontrei.
Abraços, Leonardo.

Professor Thiago Lira disse...

Caro Leonardo,

Estou grato. Volte sempre que desejar.

Abraço!

Ceiça disse...

Comentário muito bem colocado,ótima análise,um dos melhores resumos que eu ja encontrei.Parabéns!

Professor Thiago Lira disse...

Muito obrigado, Ceiça!

Anônimo disse...

vcs estão de parabéns!
esse resumo me ajudo bastante.
mais assim vc poderia me explicar os principais pontos questionados pela Inconfidência Mineira

Rosana disse...

Achei este site excelente. Tanto que o adicionei à minha lista de favoritos.

Professor Thiago Lira disse...

"Anônimo" e Rosana, muito obrigado!

Amanda M. disse...

Professor achei seu comentário realmente esclarecedor! Inclusive Cartas Chilenas é um dos livros cobrados no vestibular, e sua análise é muito bem construída.
Parabéns, e continue assim. Abraço!

Professor Thiago Lira disse...

Obrigado, Amanda.

Forte abraço!

Luria Corrêa disse...

Excelente análise!
E parabéns pelo blog Thiago, sucesso.